“Halloween” (2018) – Crítica por José Pedro Lopes

“Halloween” (2018) – Crítica por José Pedro Lopes

24 Outubro, 2018 0 Por maisterror

A noite em que Michael não tinha casa para onde voltar

 

Para qualquer fã de cinema de terror, o regresso de “Halloween” é um grande evento.

Mais se considerarmos que Jason Blum (o produtor mais popular no género em Hollywood neste mesmo) está envolvido e John Carpenter regressa para fazer a banda sonora e – ao que parece – dar umas opiniões como produtor executivo. O filme em si é competente e, a espaços, eficaz.

Este Michael Myers sexagenário impõe a sua presença. David Gordon Green sabe apresentá-lo no manicómio como uma figura ameaçadora, e a chegada de Michael a Haddonfield é pura delícia “slasher”. Este Michael recolhe 19 vítimas e o filme não poupa no “gore” e na atitude.

No entanto, este novo Halloween, um pouco como tudo na modernidade, quer o nome comercial, mas não quer saber da história do que está a vender. O filme de Green é apenas sequela do original de John Carpenter e por tal apresenta-nos uma Laurie Strode (com a também regressada Jammie Lee Curtis) que NÃO é irmã de Michael.

O que nos remete para o contexto: Michael matou 4 pessoas há 40 anos atrás. Para mim, como espectador, eu compraria um Michael que é um bicho-papão (ou seja, meio místico) ou que é um assassino que mata indiscriminadamente (como ele chega a fazer a certo ponto do filme). No entanto, Green quer tudo, e por isso quer que mesmo assim o confronto Laurie/Michael seja relevante.

A história empurra os dois para o confronto num contexto de quase coincidência, e a verdade é que se Curtis está bem, a sua personagem pouco convence. Em especial na comparação com os filmes que se escolheram ignorar. Em “Halloween – 20 Anos Depois”, Laurie lidava com o trauma do que o seu irmão fez, e está preparada para o seu regresso. É funcional, mas pouco, e o momento em que decide não fugir é deveras emocionante.

Aqui, 40 anos depois, vemos a mesma narrativa, mas aqui a história partilhada de Laurie e Michael são dez minutos há 40 anos atrás onde ela foi, quer queira quer não, apenas mais uma vítima. O mais curioso é que não é só Laurie que insiste sem sentido na relevância de Michael na sua vida. O filme a certo ponto passa a fazer o mesmo, e sem convencer. Tanto que o clímax final, onde os dois estão juntos, é criado quase por coincidência (na realidade por uma atitude maluca de uma personagem secundária).

Como personagem Michael fica com uma agenda confusa, que muda consoante o que convém apresentar. Para mim isto levanta uma questão de arrogância – presente nos comentários mais recentes de Jason Blum (e a sua atitude no geral) e na sociedade moderna que quer fazer versões de coisas antigas sem querer saber delas (basta ver como são os filmes da saga “Transformers” ou a ridícula versão americana de “Death Note”). Este novo “Halloween” diz que vem corrigir as más sequelas e é o regresso “à boa forma” da série. Mas na realidade, perde o elemento sinistro de “Halloween II” ou “Halloween IV – O Regresso do Michael Myers”. Estranhamente cola-se às versões de Rob Zombie na primeira parte, especialmente na violenta cena da casa de banho. Tenta duplicar o que vimos em “Halloween 20 Anos Depois”, mas sem a mesma eficácia, pois o que está para trás é muito menos relevante.

No final, a personagem de Allyson fica agarrada à faca e o filme parece querer sugerir que ela poderá tornar-se uma maníaca homicida, tal como Michael. Ou seja, algo como o final de “Halloween IV” onde Jamie pega na faca de Michael? Ou como no final de “Halloween” de Rob Zombie onde Laurie parece totalmente louca depois de tanta violência? O curioso é que no final que este novo filme empresta estas personagens eram todas familiares de Michael Myers e a ideia era que o mal corre na família.

Mas se Michael não é família, qual a lógica? Provavelmente, tanto faz.